Draft

Globalização

globalizacao-conclusao

A globalização, produto da evolução da sociedade, apresenta-se como principal característica do mundo pós-moderno. Tudo mudou, o conceito poder ganhou novas formas, as fronteiras deixaram de ser um obstáculo físico; o indivíduo adquiriu novos direitos e segue novas tendências [way of life]. O conceito espaço e poder passaram a estar intimamente ligados nas suas mais variadas formas de cooperação.

De um modo lato, podemos afirmar que a globalização não é mais do que o estado actual do sistema capitalista internacional, tratando-se de um processo de incremento de fluxos comerciais e financeiros entre países, através do desenvolvimento das comunicações e da “cibertecnologia”, que possibilitaram a rapidez de transacções que caracterizam o sistema.

Com a reunificação alemã acreditava-se que poucas coisas poderiam vir a acontecer, acreditava-se que o mundo caminhava para o fim. Poucos acreditavam que a mundialização atingisse um tão grande número de Estados e a um ritmo tão avassalador como aconteceu nas últimas décadas. Surgiram hábitos e ideais comuns, a nova tecnologia substitui o homem e oferece-lhe novas oportunidades de negócio e de lazer. Mas, também surgem novos tipos de ameaças aos Estados e cidadãos.
No entanto, o fenómeno ou processo da globalização é irreversível, sobretudo ao nível técnico-científico, não só pela falta de uma alternativa, mas também porque o processo funciona e desenhou-se a si mesmo.

Actualmente, o mundo conhece melhor as consequências do caos e da guerra e os perigos que o perturbam passaram a ser outros; como o terrorismo, o tráfico de armas e drogas, branqueamento de capitais, migrações descontroladas, alterações climáticas. Também o perigo nuclear, que tem escapado ao controlo do próprio Estado, ganhou outro fôlego. É o lado negativo do sistema. Os críticos, como refere José da Silva Lopes, na sua obra “A Globalização da Economia, desafios e problemas”, apontam para as consequências desastrosas da globalização, como a crescente desigualdade entre ricos e pobres, o aumento do desemprego, a degradação da protecção social, a impunidade das grandes empresas multinacionais, os riscos ambientais. Alertam ainda para a tendência dos países ricos se tornarem cada vez mais ricos em detrimento dos outros que vão perdendo capacidades económicas com perda absoluta na capacidade de influência na esfera internacional.

Estas críticas têm sido marcadas sobretudo ao nível ideológico e por uma elite que se movimenta contra o actual sistema, tentando teorizar uma alternativa à globalização ou seja, uma outra globalização. São críticas, por vezes radicalizadas e de um certo modo marginalizadas, que têm afectado de algum modo a agenda política de muitos governantes, provando que os Estados e organizações internacionais estão interessados e preocupados em minimizar esses efeitos.

Parte do sucesso da globalização deve-se ao facto desta ter mais vantagens que desvantagens, tanto a nível económico como a nível político que, por uma espécie de contágio (spillover) – contribuição para democratizar certas correntes em várias regiões do mundo – tornou o processo mais prático e acessível a todos; um processo contínuo e interdependente. A participação na globalização permite o acesso a novos mercados, novos produtos e uma contínua melhoria na produtividade oferecendo uma maior rentabilidade e bem-estar aos consumidores. Também junto dos jovens, sobretudo em regiões do globo mais ostracizadas, começa a surgir um sentimento de “democracia universal” assente na ideia de uma sociedade global.

Hoje resta apenas a superpotência norte-americana, quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista militar, tendência observada nas últimas décadas porém, esta pode vir a ser vítima do seu próprio sucesso, na medida em que países como o Brasil, Rússia, Índia e China [BRIC] podem num futuro próximo acolher ‘o centro de mundo’ e assim retirar esse papel aos EUA, uma hegemonia que marcou todo o século XX.
A hegemonia americana não deve ser entendida como negativa, antes como impulsionadora da democracia e de valores pós-modernos. A hegemonia económico-militar que representa é óbvia e necessária, especialmente para a Europa que nunca foi capaz de assumir tal papel, pois nunca se conseguiu organizar, nem pela via da força [de Napoleão ou de Hitler] nem pela via pacífica [da União Europeia]. Para o fazer no entanto, é provável que seja como consequência do surgimento de novos blocos dominantes. A moeda única da União Europeia [o euro] pode vir a ser bem prova disso mesmo já que está a conseguir manter-se competitiva face ao dólar.

O sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, na tentativa de analisar o capitalismo como um todo [sistema-mundo] concluiu que o futuro será pouco promissor, afirmando que o capitalismo durará apenas mais meio século onde anos difíceis, traumáticos, violentos e conflituosos se farão sentir. Para o sociólogo, a globalização pode ser entendida como o ‘capitalismo expandido’, tratando-se da liberdade de movimento dos factores de produção, especialmente dos fluxos de capitais versus o proteccionismo dos Estados nacionais que marcou o sistema mundial nos últimos 500 anos; sendo que nestes cinco séculos a ideologia avançou e regrediu, num movimento cíclico contínuo. Concluiu ainda que o mundo de hoje encontra-se integrado por um único sistema económico [capitalismo] que inclui também os Estados ou as sociedades ditas socialistas. Esta matriz comum à realidade contemporânea, denominada por ele de «world-system», que teve a sua origem no final do século XV e início do século XVI, constituiu-se numa «world-economy», não por englobar o mundo como um todo, como uma unidade jurídico-política, mas por integrar economicamente as diferentes partes ou unidades políticas através do mercado e da divisão do trabalho. Em 500 anos, a sucessiva expansão transformou a economia-mundo capitalista, de um sistema localizado inicialmente na Europa, num fenómeno universal. Mais recentemente, esta economia-mundo expandiu os limites geográficos do sistema como um todo, alterando a relação entre pessoas, tempo e espaço.
O argumento do «world-system» como teoria da globalização complexar-se-á se incorporar à sua análise a dimensão cultural. O lado cultural da globalização apresenta-se como um ponto de clivagem e de diferenciação do «world-system», concebido como um sistema social e fornecendo os seus próprios limites à sua expansão. Neste sentido, não há uma integração do mundo como um todo antes como uma compreensão e uma crescente consciência de unidade do mundo.

O processo da globalização não é um processo novo, antecede à própria modernidade e à ascensão do capitalismo. Contudo, a modernização acelerou a globalização e o processo de elevação do seu nível de consciência. Estamos a caminhar para uma cultura global, sendo o conjunto de todas as culturas com expressão naquela que se apresentar na potência hegemónica. Desse modo, as transformações locais são parte integrante do processo de globalização e até o ajudam a explicar ao nível global.

O Estado-nação, capitalista e ocidental, é a sociedade moderna por excelência, onde todo o processo da globalização está intimamente ligado ao seu desenvolvimento. O paradoxo é que o Estado-nação tornou-se num modelo internacional de organização político e sócio-cultural que hoje choca com os rumos tomados pelo processo de modernização que ele próprio impulsionou. A teoria desenvolvida por Susan Strange [académica inglesa] vem explicar que existem organismos internacionais concorrentes ao Estado. Recorreu ao exemplo das grandes multinacionais financeiras que utilizam os paraísos fiscais para reintroduzirem no sistema legal capitais provindos de dinheiros ‘sujos’ e do mercado paralelo controlado pelas redes e organizações mafiosas. Esta académica defendeu que o Estado não tem mecanismos que lhe permitam controlar e ‘esmagar’ estas forças que se institucionalizaram com a globalização. Conclui que ao Estado não resta mais que adaptar-se e desenvolver meios capazes de tirar proveitos desse efeito, isto é, aproveitar esta fraqueza para tirar proveito dela de forma indirecta dado que não o consegue fazer pela via tradicional.

Portanto, é inevitável que se encontrem fragilidades no processo e, como dentro das sociedades, também no sistema mundial existem países ricos, menos ricos e pobres. O fosso que os separa poderá diminuir consideravelmente se cada economia souber adaptar-se à realidade actual, se insistir e se especializar naquilo que melhor sabe fazer com base nos seus recursos próprios e na sua vantagem comparativa. Como refere José da Silva Lopes os “benefícios do comércio livre não se distribuem igualmente por todos os países ou populações”, a certeza porém é que os países ricos têm ao seu dispor mecanismos que lhes permitem desenvolver métodos técnico-científicos capazes de tirar maior benefício do processo e assim prosseguirem no avanço do seu desenvolvimento. Por outro lado os países subdesenvolvidos e periféricos, não oferecem condições político-económicas capazes de fomentar investimento estrangeiro para desenvolver neles processos que noutras partes são mais viáveis.

A globalização tenderá assim a beneficiar mais os países ricos porque é neles que se encontra o verdadeiro mercado e redes de distribuição. Quanto ao subdesenvolvimento, enquanto albergar corrupção e regimes pouco democráticos é provável que o fosso que os separa, face aos países desenvolvidos, aumente até porque, o esforço que estes países terão de fazer para acompanhar os mais avançados será gigantesco e é mesmo provável que nunca o consigam fazer; os países ricos desenvolverão mecanismos que alavancam cada vez mais o seu desenvolvimento, fazendo aumentar esse distanciamento, ainda que esses mecanismos possam servir de motor aos países menos desenvolvidos. Exemplo disso encontra-se Portugal que há 30 anos se encontrava nos últimos lugares em áreas como a saúde e que hoje se apresenta nos lugares cimeiros dos países desenvolvidos.

Um dos grandes desafios da globalização é resolver o problema do desemprego já que o avanço deste modelo irá ameaçar a maioria das sociedades especialmente as periféricas mas rapidamente caminhará para o centro. Assim, os Estados mais vulneráveis devem criar mecanismos para a manutenção das micro e pequenas empresas de modo a garantirem o nível de riqueza e de bem-estar que evite deslocalizações em massa para os centros urbanos ou países mais desenvolvidos. Os Estados periféricos irão certamente enfrentar um outro problema ao nível demográfico, por um lado pela diminuição da natalidade e aumento da esperança de vida, que colocará o estado-social sob pressão podendo mesmo colapsar. Por outro lado, a deslocação para os centros urbanos colocará o mundo rural em plena desertificação fazendo agravar o problema dos bens de primeira necessidade, que serão cada vez mais escassos e consequentemente mais caros.

Mas, o lado negativo da globalização pode ser minimizado se os estados criarem mecanismos transversais de controlo da despesa pública nos ciclos económicos mais favoráveis na medida em que esses ciclos podem proporcionar formas vantajosas para ciclos seguintes menos favoráveis. Os Estados da periferia, que irão sentir vincadamente os efeitos negativos do sistema, têm um trabalho acrescido no que concerne o controlo da despesa pública, e por isso devem criar uma administração pública simplificada, adaptada às novas tecnologias de modo a possibilitar a formatação de novos serviços públicos, redução de custos e prestação de melhor serviço público para libertar recursos, gerar poupança e atrair investimento.

Certo porém é o que o sistema não está acabado e a massificação da Internet vai acelerar a tendência para a harmonização de normas de modo a que as condições, direitos e obrigações aproximem métodos e regras no plano internacional. Uma política regulatória que condicione e obrigue os Estados a cumprir obrigações sociais, proibindo as práticas de «dumping», ou utilização de mão-de-obra ilegal, é um dos princípios indispensáveis ao processo que visa incrementar melhorias dos níveis de bem-estar da população mundial.

Advertisements
Standard